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sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A metametalinguagem de Madonna

Foto: Marcus Piggott e Mert Alas
 Última resenha do #REC que estava escondidinha na gaveta. Agora é a vez de Madonna.

Clipes controversos capazes de preparar uma cama cheia de polêmicas. Essa é a arma (ou o trunfo sob os lençóis) que a diva Madonna tem se utilizado durante quase três décadas para se conservar no posto de rainha pop. Mesmo em tempos de concorrentes megalomaníacas, como Lady Gaga, Madonna indica que ainda não está pronta para abdicar do reinado. Com o vídeo de Girl Gone Wild, do décimo segundo álbum MDNA, a artista se inspira em elementos da própria carreira para se reinventar e para fabricar um novo produto. 

A partir do lançamento, no dia 23 de março, MDNA galopou rapidamente rumo ao ápice da lista de sucessos da revista Billboard. Porém, já na semana seguinte, ele amargou a maior queda de vendas para um disco que esteve em primeiro lugar (86,7%). A faixa Girl Gone Wild teve o mesmo destino e não emplacou no rádio como se era esperado. 

Apesar dos reveses, não se pode negar que o vídeo da música é uma surpreendente homenagem à própria carreira de Madonna. Lançado um pouco antes do cd, é dirigido pela dupla de fotógrafos Mert Alas e Marcus Piggott, que já haviam feito um ensaio com a diva para a revista Interview em 2010. O resultado da segunda parceria é um desfile de autorreferências e de metalinguagens. 

Madonna em Like a Prayer (1989) e em Vogue (1990).

Relembrando Like a Prayer, em Girl Gone Wild (em tradução livre, “A garota que ficou selvagem”), Madonna insinua falar com Deus e se diz “arrependida de coração por tê-Lo ofendido”. Apesar de “detestar meus pecados” e “querer tanto ser boa”, ela admite que é “uma garota má, no final das contas”, principalmente quando fica “na pista de dança até a luz do amanhecer chegar”. O próprio refrão, quando se ouve que “garotas querem apenas se divertir”, já remete aos anos 80 de Girls Just Want to Have Fun, de Cyndi Lauper, época em que Madonna também surge no cenário pop.

O vídeo é filmado em um preto e branco de contrastes, cuja aura natural de imponência e de drama é desestabilizada por uma imagem poluída por estáticas. Esse e outros elementos nele presentes são na verdade heranças de clássicos passados de Madonna. Os diretores reúnem em um só trabalho a intensidade do glamoroso Vogue, a sensualidade dos latejantes Erotica e Justify My Love e o sombrio do coreografado Human Nature. Inclusive, 
 Justify My Love e Human Nature mereceram até novas versões, usadas como plano de fundo em apresentações da MDNA Tour.



 

Justify My Love, Erotica e Human Nature são outros clássicos da diva

Temas como sexo e o universo gay são novamente resgatados às telas, agora de uma forma mais explícita. Os homens musculosos do grupo ucraniano Kazaky [os fortalezenses devem se lembrar bem né =p], de meia calça e saltos altíssimos, chocam ao dançarem tão sinuosamente quanto a artista e abalam a distinção entre os gêneros. Além disso, a ousadia dos fotógrafos de privilegiar a beleza estética do corpo masculino traz ao vídeo um olhar diferente.

O voluptuoso é ungido ainda com elementos que remetem à religião. Os antigos pingentes e brincos de cruzes voltam ao figurino de Madonna, enquanto ruídos na imagem e uma coroa de espinhos simulam episódios da crucificação de Cristo. A maçã, como o fruto proibido de Adão e Eva, aparece sendo devorada ao mesmo tempo por dois rapazes, talvez em crítica ao comportamento que rejeita homossexuais. Ou, simplesmente, em pura provocação, uma das qualidades mais exercidas pela cantora.

Porém, quem assiste ao clipe fica com uma sensação estranha de déjà vu. Isso porque o clima sombrio, as referências religiosas, o erotismo e o andrógeno se assemelham (e muito) a outra obra de sucesso, o controverso Alejandro, da rival/colega Lady Gaga. Até mesma a cena em que Madonna chora lágrimas negras parece uma reprodução, ou mesmo uma paródia, da capa alternativa do cd The Fame Monster, de Gaga.

Em Girl Gone Wild, é como se a mestra se autocopiasse a partir da pupila. É como se Madonna falasse de cantoras que imitam ela própria, que, por sua vez, também é cópia de celebridades, como Marilyn Monroe. A metametalinguagem, digamos assim, é o que há de mais interessante no vídeo. Ela é a prova de que a artista é dona de uma capacidade camaleônica de se reinventar. Aparentemente, Madonna não irá passar de vez a coroa de rainha do pop. Ao menos, não por espontânea vontade.


Veja o Girl Gone Wild:




E confira abaixo alguns dos clipes que serviram de inspiração:

Like a prayer - 1989



Vogue - 1990



Justify My Love - 1990



Erotica - 1992



Human Nature - 1995




segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Nascida para morrer (?)


Já faz um tempinho que fiz essa resenha, mas aceitando revidar certas alfinetadas (#brinks, gente, hehehe), decidi postar a minha opinião sobre a cantora americana Lana Del Rey. Cada um tem seus pontos de vista, e com certeza entendo como muitos ficam terrivelmente entendiados ou com sono ao ouvir as músicas dela. Pra completar, sua figura está toda construída entorno de polêmicas [fabricadas ou não]. De qualquer forma, é só conhecendo as músicas de Del Rey para afinal você decidir se é um estorvo completo ou uma beleza incrível [espero que venha pro meu time ;D].

Desde que surgiu bombando na internet com o hit Video Games, em 2011, a cantora americana Lana Del Rey vem causando controvérsias. O motivo? O mistério do passado que a artista carrega nas costas. A polêmica que gravita em torno de si inflou-se ainda mais quando o primeiro disco oficial da carreira veio à tona para intrigar crítica e fãs. Born to Die, (“Nascido para morrer”, em tradução livre), vendeu um milhão de títulos em um mês e marca a vereda acidentada que a cantora tem trilhado. Ele deixa um agouro no ar: Lana sobreviverá no mercado da música pop?

Em verdade, esse não é o trabalho primogênito de Del Rey. Muito menos, o nome real da artista. Nascida como Elizabeth Grant e apelidada de Lizzy, a norte-americana já lançou em 2010 o cd Lana Del Ray a.k.a Lizzy Grant. O álbum foi rapidamente retirado da loja virtual iTunes, por razões escusas. Lábios avolumados e mudança de gravadora depois, Lana é acusada de ser uma fabricação de empresários da música.

A desconfiança aumentou com os shows ao vivo. Em janeiro, pouco antes do lançamento no dia 31 do novo disco, fez uma apresentação no programa Saturday Night Live, classificada como “desastrosa” pelos críticos. A postura tímida e o canto desajeitado colocaram em xeque a talentosa figura sexy que foi construída. Mas nada disso é capaz de ofuscar o brilho de Born to Die.

Não há como não se deixar seduzir pela voz rouca e sussurrada, ora grave, ora aguda, que interpreta as 12 canções do cd (ou 15 na versão especial). As faixas são saturadas de uma tristeza sombria de um passado sem data. Assim como outros ícones pop, ela é herdeira do saudosismo de épocas não vividas pelos jovens de hoje. Lana Del Rey une em uma só cantora a melancolia de Adele e as letras destrutivas e desregradas de Amy Winehouse.

Del Rey também chama a atenção do público pelos clipes que lança na internet. Video Games, o primeiro a atrair os olhares curiosos, é uma síntese de nostalgia e atemporalidade. O vídeo, em super-8 (tipo de película cinematográfica), mostra recortes de filmes antigos e cenas de desenhos animados. Carmen, Off to the Races e uma das versões de Blue Jeans seguem o mesmo estilo.

Apesar do sucesso da estética, Lana investiu em clipes mais adequados à indústria, sem perder a mão artística. Exemplos são os das músicas Born to Die (que dá nome ao trabalho) e a segunda versão de Blue Jeans. Na última, a simplicidade da piscina que serve como único cenário coexiste com a grandeza das cenas de lascívia e fatalidade, amplificadas pelo preto e branco. Aliás, em ambos os vídeos, Tânatos (personificação grega da morte) e Eros (deus grego do amor) andam lado a lado e se beijam constantemente com fervor.




Mas é inegável, mesmo àqueles que antipatizam com a moça, que o forte de Del Rey são as letras. É quando a poética se extravasa e talento da jovem se mostra em esplendor. Radio, oitava faixa, traz as tensões da fama, que se torna um imperativo de paixão, já que “me ame, porque eu estou tocando no rádio”. Em Without You, a petulância de celebridade se subjuga ao amor, quando “todos os meus sonhos e todas as luzes significam nada sem você”.

Essa emoção que as composições trazem já é prevista logo no início do disco, com a homônima faixa Born to Die. A cadência dolorosa do refrão assume que “às vezes o amor não é o bastante e a estrada fica difícil” e por isso “vamos nos embriagar, porque o caminho é longo (...) tente se divertir nesse meio tempo”. Mesmo assim, o fim é inevitável, então “escolha suas palavras finais, esta é a última vez, porque eu e você nascemos para morrer”.

Quer produto sintético de um laboratório industrial, quer genuíno talento, as músicas de Lana Del Rey encantam pela pura beleza. Talvez a cantora realmente tenha “nascido para morrer” no mercado e nunca mais faça algo de relevância. Apenas talvez. O que importa é que o álbum Born to Die dificilmente trilhará essa decadência. Lana conseguiu eternizá-lo, ao menos, como um dos melhores discos deste ano.