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sábado, 23 de novembro de 2013

Arte de contar histórias

Ilustração: Olaf Hajek
Seja como forma de exorcizar demônios internos, fugir da realidade ou se perpetuar para além da existência material, todo bom contador de histórias não pode deixar de lado uma coisa chamada empatia. É ela que vai aproximar a narrativa do interlocutor. Como explicar a conexão que criamos com personagens como o robô Wall-e, o peixinho Nemo ou mesmo a Morte, narradora do romance “A menina que roubava livros”? Todos estes personagens foram construídos com características e sentimentos humanos, sejam eles bons ou ruins. Afinal, não nos envolvemos apenas com os mocinhos. Os antagonistas são a razão de uma história existir, pois o conflito é a base de tudo.

Contar histórias sempre esteve na moda. O ser humano sempre procurou ressignificar sua realidade através de narrativas, desde a época das pinturas rupestres. Da literatura ao videogame, uma história pode estar presente nos mais diversos meios e formatos. E não há aquele que não se deixe envolver por uma trama bem amarrada. No entanto, o que seriam das histórias sem os responsáveis pela sua perpetuação? No fundo, somos todos contadores de histórias, mas há sempre aqueles que colocaram essa função como ideal de vida.

É o caso do estudante de Publicidade e Propaganda Pedro José Brandão, que resolveu jogar todos os antigos planos para o alto e se assumir como contador de histórias. “As histórias são maneiras de entender e repassar o que se entende da vida, uma forma de passar adiante a verdade. Mesmo a ficção fala verdades. Nós somos personagens de uma história maior e também somos histórias em nós mesmos. Temos em nossa vida episódios cômicos e trágicos, como uma boa série de TV. Momentos tensos e de ação, como uma história em quadrinhos. Interessar-se por histórias é se interessar pela matéria-prima que nos faz humanos”, conclui.

Pedro esteve à frente do curso “Caminhos do Storytelling”, no Vila das Artes, onde esmiuçou os elementos da estrutura narrativa, como ação e personagens. Esta semana, ele ministrou a Oficina de Criação de Histórias, no Festival UFC de Cultura. Baseando-se em teóricos clássicos, como Aristóteles, e contemporâneos, como Joseph Campbell, em sala de aula ele repassa aos interessados por contação de histórias suas experiências como professor da Oficina de Quadrinhos da Universidade Federal do Ceará. “É a realização de dois sonhos: ser contador de histórias e ser professor, além da realização de ver tanta gente boa com vontade de produzir suas próprias histórias”, revela.
Ilustração: Olaf Hajek
Assim como todo herói sai em uma jornada com a ajuda de um mentor, a exemplo de Frodo e Gandalf, Luke e Obi-Wan ou Harry e Dumbledore, os alunos de Pedro podem encontrar nele uma espécie de “Morpheus” da contação de história. “Entregar na mão das pessoas ferramentas para produzir suas próprias histórias é algo mágico. Sinto-me como um tutor entregando um artefato mágico na mão do aventureiro. A partir desse encontro, ele vai percorrer sua própria jornada”, filosofa.

No Porto Iracema das Artes, Pedro também inicia mais outro projeto: o curso de Produção de Quadrinhos. O primeiro módulo será centrado na construção de roteiros. E para aqueles que têm boas histórias, mas não mandam muito bem no desenho, Pedro garante que saber desenhar não é pré-requisito para criar roteiros. Ele mesmo, por sinal, está longe de ser desenhista. Ao promover projetos como esses, o professor de storytelling tenta suprir uma carência de formação profissional na área. “O tecnicismo é onipresente nas escolas e as artes são deixadas de lado na formação. Se temos uma sociedade que preza enormemente pelo que é técnico, o artístico fica de lado. Cursos formativos de escritores e roteiristas acabam sendo vistos como perda de tempo”, lamenta.

O Brasil tem um mercado consumir crescente de histórias. No entanto, este consumo acaba sedo majoritariamente de produções estrangeiras. Em 2011, foi sancionada a Lei 12.485, que, entre outros pontos, determina a quantidade mínima de programação nacional que os canais pagos devem exibir semanalmente. “Um dos principais objetivos da lei é aumentar a produção e a circulação de conteúdo audiovisual brasileiro, diversificado e de qualidade, gerando emprego, renda, royalties, mais profissionalismo e o fortalecimento da cultura nacional”, explica o site oficial da Agência Nacional do Cinema. Apesar disso, Pedro ainda é um pouco descrente dos efeitos positivos da medida. “Por causa da obrigatoriedade, as empresas vão atrás de quem for produzir mais barato, não o de melhor qualidade. Há mercado, mas precisa de boas pessoas para contar boas histórias”, afirma.

Por Aline Moura

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Eu veria os mais lindos filmes através dos seus trágicos olhos



Se os olhos são as janelas da alma, os de Lavínia estão semicerrados por grossas venezianas de um silêncio que ecoa mistério. Engana-se aquele que os observa e se acha capaz de entrever o que se passa no íntimo deles. Nem o próprio Cauby, protagonista do filme Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, consegue descobrir por inteiro o que está por detrás deles. O fotógrafo (e o espectador) forasteiro se vê diante de diferentes versões de Lavínia, à medida que o romance dos dois cresce com o passar dos minutos, das horas, dos dias, dos meses. Até que a vida de ambos começa a descer uma corredeira, como um dos muitos rios que cortam o ventre do Pará, alimentado pelo proibido, pelo prazer, pelo remorso, pelo amor, pelo perigo.

– Cauby, santa é a carne que peca, diria mais tarde Viktor Laurence, jornalista e amigo do fotógrafo, em uma agourenta premonição.


Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios (2011), dirigido por Beto Brant e Renato Ciasca, é inspirado no livro homônimo de 2005, de Marçal Aquino, que, aliás, também é o responsável pelo roteiro da adaptação. Este é sétimo trabalho que nasce da parceria e da amizade de 20 anos entre Brant e Aquino. Pela mão de Brant, já foram à tela Os Matadores (1997), Ação Entre Amigos (1998) e O Invasor (2001), todos livros de Aquino. Os outros três filmes do diretor (Crime Delicado – 2005; Cão Sem Dono – 2007; e O Amor Segundo B. Schianberg – 2009) não foram baseados diretamente na obra de Aquino, mas também tiveram sua participação como roteirista. Já com Renato, Beto já vinha trabalhando desde O Invasor, sendo Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios o primeiro filme no qual dividem a direção.

O filme narra o romance tortuoso que nasce entre Lavínia, uma mulher cheia de histórias ocultas (e esposa de Ernani, um popular pastor e líder religioso), e Cauby, um fotógrafo vindo de São Paulo. Como pano de fundo, o cenário paradisíaco de uma cidade no interior do Pará, rachada pelas tensões entre ambientalistas e madeireiras ilegais.
Eis um dos pontos fortes do filme: apesar de o foco se mantém prioritariamente sobre o triângulo amoroso, Brant e Ciasca conseguem também imprimir um teor político. Durante as gravações do filme, os índios de Santarém estavam denunciando a extração ilegal de madeira em áreas de conflito. Esse foi o gatilho que fez a equipe se interessar pelo tema e conversar com lideranças da região. A dupla de diretores, então, inseriu no longa cenas que dialogam com as disputas ambientais presenciadas. Exemplos disso é a pregação que o pastor faz em defesa da preservação das matas e dos rios e o discurso de um ativista contra “um governo que na verdade é mais latifundiário que os madeireiros” e contra “um plano de manejo de destruição” da floresta. Tudo isso sem desviar ou destoar do romance narrado.

Outro aspecto que chama atenção é a influência da cultura paraense, por meio das cores, das moradias, da trilha sonora, da iluminação, dos costumes e mesmo da culinária. Ao mesmo tempo em que o ambiente, os elementos cênicos e os sons refletem as belezas do Pará, eles são articulados de tal maneira a criarem também uma aura de mau presságio que paira constantemente no ar, contribuindo para um crescente suspense insuflado no ânimo de quem assiste.

Gero Camilo no papel de Viktor Laurence,
jornalista de língua ferina 
Tudo isso se transforma em características secundárias frente à incrível complexidade psicológica de que são dotados os personagens, graças ao roteiro e às interpretações dos atores. Gero Camilo dá um tom de malícia venenosa a Viktor Laurence até nos movimentos corporais, assemelhando-o a uma peçonhenta serpente, de língua e palavras afiadas. Já Magnólio de Oliveira consegue fazer um palhaço amigo que esconde sob os sorrisos um quê de alerta, enquanto Zécarlos Machado interpreta um Ernani eloquente e persuasivo nos discursos feitos aos fiéis. Até mesmo Gustavo Machado, criticado por alguns pela atuação fria, consegue passar o espírito de galanteador do personagem Cauby.

Deles, porém, é nítido o brilho que a enigmática Lavínia e a poderosa interpretação de Camila Pitanga adquirem. A atriz consegue encarnar diferentes facetas de uma mesma personagem sem nunca perder a unidade, mesmo com as enxurradas de transformações que invadem a vida de Lavínia. Camila dá a ela um semblante sensível, sensual e agressivo, deixando à mostra as cicatrizes guardadas no peito de uma mulher que muito sofreu e que ainda muito sofrerá.


Em diversas situações, Lavínia se encontra presa a uma situação em que há uma vontade mista de permanência e de fuga (seja naquela que vivenciou no Sudeste, seja na que vive no Norte). Entre um amor piedoso oriundo de uma profunda gratidão e uma paixão lascívia embalada em um sonho antigo, Lavínia se faz perder e reencontrar nas águas escuras que são seus sentimentos. Porém, sempre é dela a palavra-ação capaz de se aprisionar ou de se libertar.

O filme traz em si uma carga erótica muito latente, visível desde a abertura, em que uma modelo nua posa para a câmera oculta de Cauby. A sensualidade tratada ali no filme não remete a uma perspectiva isenta de gêneros. É o erótico dos corpos femininos visto através de olhos masculinos. Uma visão que parte da masculinidade, sem cair, necessariamente, na caracterização machista. Além disso, o erótico e o perigo são constantemente costurados em um só, como na cena em que Cauby e Lavínia brincam de pintarem sua nudez com pincéis encharcados de tinta, imaginárias flechas venenosas lançadas na guerra entre índios rivais.

Em sintonia com os nãos e os sins de mistério que circundam Lavínia, elipses ambíguas marcam todo o percorrer do filme, mais escondendo e embaralhando do que explicando os fragmentos narrativos. No último ato, um corte brusco no tempo deixa muitas perguntas gravitando num vazio. O espectador, na companhia da própria Lavínia, se pergunta o que foi feito dela e se ela ainda existe. Até que um chamado ressoa e um sorriso inquietante se desenha. E os olhos do interlocutor sorriem, mesmo sem visão. Mesmo sem final.

domingo, 11 de agosto de 2013

Entre dois mundos e dois tempos: um duelo

Ao fundo, um som de mar abraça o palco gigantesco montado em todo o andar inferior do Theatro José de Alencar (TJA). O marulho acompanha o movimento ondulante da lona negra nas mãos dos atores, enquanto o público, instalado nos camarotes, debruça-se nos balcões como em grandes janelas, a curiar o vai e vem da vida dos personagens. O farfalhar do plástico, casado à sonoplastia, lembra a trilha sonora de uma orla, cenário tão familiar nosso, ao mesmo em que remete a um mar negro que em tanto se distancia do mar verde que nos banha. O duelo começou.

***

Dando sequência às adaptações de romances russos, a mundana companhia (assim mesmo escrito, em minúsculas, com o adjetivo anteposto ao substantivo), de São Paulo, monta o seu sexto espetáculo numa lógica inversa daquela geralmente presente em companhias do eixo RJ-SP. Desde o dia 02 de agosto, até este domingo (11), está em cartaz no TJA a peça O Duelo, encenação da novela russa de Anton Tchekhov, cuja estreia nacional acontece em Fortaleza para, depois, partir para outras cidades do Nordeste até chegar à capital paulista.

Porém, antes mesmo das primeiras apresentações em Fortaleza, o público de três cidades do interior do Ceará pôde acompanhar o processo de criação do espetáculo. A companhia decidiu viajar por quase dois meses pelas cidades de Arneiroz, Iracema e Lavras da Mangabeira. Esta última é a cidade natal do ator Aury Porto, idealizador da peça e um dos fundadores da mundana companhia, servindo para ele como inspiração. Foi a partir da própria história de Aury que veio a ideia de aproximar o calor e a vida do Cáucaso à quentura e à rotina de pequenas cidades do Nordeste. Confira abaixo a conversa que tivemos com Aury sobre a ideia da peça e os próximos projetos da companhia:



A obra de Tchekhov, escrita em 1891, relata o cotidiano de personagens que moram em um calorento e pequeno lugarejo caucasiano, mas que anseiam por uma Rússia de clima mais ameno e de (suposta) efervescência cultural. No centro do romance, está Ivan Laiévski, um funcionário público que fugiu de São Petersburgo com Nadejda Fiódorovna, já casada com um outro homem. O comportamento do casal desafia as regras socialmente estabelecidas e provoca reprovação por parte dos moradores, quer seja de maneira mais translúcida, como no zoólogo Von Koren, quer seja de maneira mais camuflada, como em Maria Konstantínovna, “amiga” de Nadejda. A vida de Laiévski e Nadejda então passa a ser serrada por duelos: em seus íntimos, entre si, entre eles e os moradores. Até que Von Koren desafia Laiévski para um embate derradeiro.

Durante as três horas e meia de espetáculo (com 15 minutos de intervalo), uma variedade de elementos consegue prender a atenção do público e evitar um pouco o cansaço. A música se faz presente durante toda a peça, enquanto a iluminação e a sonoplastia amplificam a beleza das cenas. Materiais do cotidiano ganham outras cores e significados no palco. Em um momento, Nadejda se refresca nas águas do mar e brinca com um imenso saco plástico, que se transforma em uma bolha onde pode imergir para longe das dívidas e das febres costumeiras que lhe acometem. Em outro, uma chuva de fitas de papel gravita na tensão de relâmpagos e trovões de uma tempestade que chega à cidade, enquanto um redemoinho toma conta de Nadejda e da vida dos demais personagens.

Apesar de se passar no contexto europeu do século XIX, muitos elementos cênicos remetem diretamente à cultura cearense, como instrumentos musicais, chinelos de couro, cadeiras de balanço, além do próprio calor inclemente do sol e do barulho suave do mar. No tablado, não há somente o duelo de entre as ânsias particulares dos personagens e as expectativas sociais que conseguem ou não atender. Ali, chocam-se dois mundos separados por espaço e tempo, que se casam e se digladiam em constante movimento. Ou melhor, embatem-se duas realidades sociais: Cáucaso X São Petersburgo, Ceará X São Paulo, Nordeste X Sudeste, a dita “periferia” versus o dito “centro”. Talvez seja por isso que este texto de Tchekhov se mantenha tão vivo e consiga se conectar tão diretamente ao contexto brasileiro.

***

O embate chega ao fim. As ondas do mar, por ora tão esquecidas, prevalecem após tantos acontecimentos. É o som da natureza que suplanta as arrogâncias e as vaidades humanas. A lona negra agita-se, prolonga-se. Não há mais Laiévski, Von Koren, Nadejda, Konstantínovna, Samóilenko, Diácono, o desfile de personagens. Em vez disso, surgem em cena Aury, Pascoal, Camila, Carol, Vanderlei, Freddy, o elenco. As ondas precipitam aos poucos no tablado, enquanto os atores as perseguem e delas fogem, como em uma brincadeira entre amigos numa praia durante o tempo livre. Até que uma gigante maré os engole e os leva para sempre ao fundo do Mar Negro. Tudo se faz escuridão. Mas o duelo ainda não terminou.

Serviço

Espetáculo O Duelo, da mundana companhia
Duração: 3h30.
Local: Theatro José de Alencar.
Apresentações: Às 19h, até hoje, 11.
Ingressos: R$ 20 a inteira, R$ 10 a meia.



Para saber mais, acesse o blog da peça, o site e a página no Facebook  da companhia.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Vazios que povoam a vida


Foto: Tamara Lopes
Na entrada do cemitério São João Batista, um grupo de pessoas se aglomera. São quatro horas da tarde. A luz do sol ainda está forte, mas começa a se decompor em amarelo. Um prenúncio de sua morte, marcada para poucas horas ali adiante. Uma moça, sentada a uma mesa coberta por toalha de rendas brancas, recolhe nomes que, por ventura, alguém quisesse abençoar. Dou-lhe o nome de minha mãe. “O que você deseja pedir a ela?”. “Paz”. Minutos depois, ao toque de uma sineta, ela lê a lista dos mortos. Com surpresa, ouço reverberar o de minha mãe entre as falecidas, por mais que, poucas horas atrás, eu houvesse lhe dado um beijo antes de sair de casa. Outro espectador converte surpresa em risada ao saber da notícia sobre sua própria morte durante um voo pra Rondônia.

Assim se inicia a peça Além dos Cravos, do grupo teatral Em Foco. O enredo não trata de qualquer história específica. Antes disso, costura com a linha da teatralidade trechos narrativos às vivências dos espectadores. Sim, esta não é a típica peça interpretada no palco italiano, em que há a clara divisão entre os atores e o público. Em Além dos Cravos, todos acabam sendo protagonistas e ao mesmo tempo espectadores ante o tema comum a qualquer ser humano: a efemeridade da vida. 
Foto: Tamara Lopes
Mercantilização da morte, suicídio, saudade dos entes amados, dores lancinantes, resignações serenas. Tudo isso tratado com muita sensibilidade e, em momentos certos, com um toque de humor. A cada cena, questionamentos são plantados e nos fazem rever relação que temos com a morte. Por que vivemos numa sociedade que idolatra tanto a vida e se silencia sobre a morte? Por que esquecer aquilo que não se pode apagar? Quando nos vamos "para o outro lado", realmente “vamos”? Ou viramos fantasmas sentados nos túmulos, observando a vida passear? 

Os diversos elementos cênicos traduzem a suavidade e a delicadeza com que o tema é tratado. Coroas de flores pairam sobre as cabeças dos atores ou botões de violetas de plástico se enroscam em suas roupas. Os tons lilases do figurino amenizam o preto e branco dos trajes e das galochas. Mesmo a morte, caracterizada como homem, materializa-se em gazes que dão leveza aos movimentos. A água, utilizada em várias cenas, ora corre, ora se represa, transformando-se em ponte fluida entre os vivos e os mortos.

Nas ruas do cemitério



Foto: Tamara Lopes
O ambiente inusitado é outro atrativo. Não só pela beleza do São João Batista (nunca antes conhecida por mim), mas pela própria aura de mistério que ronda o lugar. As cenas transcorrem em uma das tantas “ruas” que cortam o ventre do cemitério, prenhe de mausoléus luxuosos que dividem espaço com lápides mais singelas, empalidecidas pelo tempo. No cortejo que se forma com a peça, vemos vidas passadas traduzidas em cruzes, datas, flores, cimento. O vento corre e sacode as árvores com um murmúrio. Entre uma lápide e outra, "fantasmas" contemplam os vivos em procissão.


Aliás, atuar em “palcos” nada convencionais é a proposta de pesquisa do Em Foco. Além dos Cravos é o terceiro espetáculo do grupo, que desde 2009 já montou Preciso dizer que te amo, Jardim das Espécies e algumas outras esquetes e performances. No cerne de cada trabalho está o relacionamento direto com o público, que deixa o voyeurismo de lado e se envolve com aquilo que é apresentado. Em Além dos Cravos, o público é convidado compartilhar de memórias sobre a morte. Até os atores se abrem um pouco e inserem na interpretação lembranças próprias.

Por isso, essa relação até se complica quando há um grande número de espectadores (como na apresentação em que fomos) e muitos detalhes das cenas se perdem. Mas sempre é bonito ver a quantidade crescente de pessoas abertas ao teatro. Não foi raro perceber, mesmo entre uma distração e outra do público, pessoas se emocionando e/ou compartilhando dos sentimentos das falas.

O sol vai se pondo. E nós, em cortejo, perseguindo até a última luminosidade, chegamos aos fundos do cemitério. Como a vida, aos poucos, a tarde vai se desfazendo e dá últimos suspiros. Com giz, o público é convidado a deixar um recado final gravado no chão. É aí que refletimos principalmente sobre os nossos próprios entes queridos que já morreram. Como estarão? Devemos preservar o vazio deixado por eles? Ou devemos alimentar o oco com as lembranças que nos são tão caras? Pensamentos que ecoam durante a caminhada de volta para a entrada e que não encontram respostas definitivas, enquanto observamos as flores e a poeira dos túmulos que ali permanecem.

Foto: Tamara Lopes

Serviço
Para os que ficaram curiosos, este final de semana será o último de apresentação de Além dos Cravos. A temporada da peça se encerra neste sábado (27/07) e domingo (28/07), às 16 horas, no Cemitério São João Batista (R. Padre Mororó, 487 – Centro). A entrada é gratuita. Para conhecer mais sobre o grupo, visite a página do grupo no Facebook. Para conhecer um pouco mais sobre a história do Cemitério, confira no blog Fortaleza Nobre.

domingo, 13 de janeiro de 2013

O pop rock reinventado de General Elektriks


Uma batida de pop rock, com timbres retrô, com o arranjo de teclados, clavinetes e sintetizadores, com toque de funk, hip hop e música eletrônica. Tudo isso com sotaque francês.

Estou falando do projeto General Elektriks, do pianista francês Hervé Salters. Ele iniciou o processo de construção das músicas em San Francisco, em 1999. A grande ideia foi misturar ritmos, acentuando o caráter vintage. Inspirado em Stevie Wonder, além de tocar super bem, Hérve também gosta de ser um tanto performático em suas apresentações.
O que conquistou mesmo foi a energia do projeto, de uma banda bastante competente e diferente. Outro membro do General que deve ser mencionado é Jessie Chaton. O baixista, também parisiense, faz umas danças muito engraçadas enquanto está tocando.
Em pouco tempo de carreira, Hérve já tocou com importantes nomes da música negra, a qual também Femi Kuti (filho de Fela Kuti, instrumentista nigeriano famoso nos anos 70) e o grupo de hip hop californiano Blackalicious.

Já são três álbuns na carreira: Cliquety Kliqk de 2003, Good City for Dreamers de 2009 e, o mais recente, Parker Street de 2011. E nada melhor que escutar os clipes dessa banda para ter certeza de que é muito boa!


Confira o vídeo do single:




E eis uma das minhas músicas favoritas:



quarta-feira, 21 de novembro de 2012

A sinestesia da Metrópole

Silvero Pereira em cena - FOTO: Divulgação
O que é ser artista? É decorar textos e fingir ser outra pessoa? É fazer mímicas e esperar que a plateia acerte o que se quer dizer? É pintar como os Renascentistas ou como Picasso? É fotografar com lata de leite ou com uma Canon D5000? É dançar forró ou usar o corpo desconstruído para sintetizar um novo sentimento, uma nova expressão?
E depois de tentar responder (não respondendo) o que é um artista, é bom também levantarmos a seguinte questão: o que significa esta categoria no nosso contexto social? Na nossa cidade, no nosso bairro, na nossa rua e até mesmo na nossa casa? Onde está a arte? Onde ela se esconde? E ela realmente está oculta no meio de nós?
Tentando mostrar a importância que o fazer artístico possui, a Inquieta Cia. de Teatro traz o espetáculo Metrópole, com direção de Gyl Giffony e texto de Rafael Barbosa. A trama é a história de dois irmão atores, Caetano e Charles. O primeiro é bastante talentoso, mas abriu mão de exercer a profissão que gosta por falta de espaço e valorização da categoria. O segundo, seguiu em frente e, mesmo com todas as adversidades enfrentadas, continua com o intuito de fazer arte e beneficiar terceiros com a cultura proveniente deste “setor” do meio cultural.
Com um jogo de cena entre os espectadores, se utilizando de espelhos, alternâncias entre luz e sombra e uma trilha sonora muito bem escolhida, o público apreende com mais força os sentimentos destes dois, que nos ajudam a dar início a uma série de reflexões sobre o papel da cultura para a estruturação da sociedade e em que parte de cada um está a arte.



Atores dando vida a atores
Thiago Andrade em ensaio - Divulgação

E como não falar da maravilhosa interpretação de um dos grandes nomes do teatro cearense. Silvero Pereira, como já era de se esperar, não decepciona ao dar vida a Caetano, um homem “zumbi”, o qual segue uma rotina trivial, excluindo de suas vivências o fazer artístico, tonando-se, assim, um morto-vivo.
E a parceria no palco com Thiago Andrade só engrandeceu a trama em si e a reflexão sobre o tema.
Thiago foi aluno de Silvero no Curso de Princípios Básicos em Teatro, promovido pelo Theatro José de Alencar. E as aulas foram muito bem apreendidas por essa nova figura do cenário artístico local. Tanto que sua personagem é de uma crescente incrível na peça, ficando sempre em uma sintonia perfeita com seu colega/tutor.
Então, agora é chegar cedo, garantir seu ingresso e mergulhar nessa sinestesia chamada Metrópole.

Mais informações:

Você pode conferir este espetáculo nos dias 22, 23 24/11 (quinta-feira a sábado), na Sala de Dança Hugo Bianchi (anexo do TJA - Rua Liberato Barroso, 525 – Praça José de Alencar).
Ingressos R$ 20,00 e 10,00 (meia)

sábado, 3 de novembro de 2012

Para se arrepiar: Dicas de histórias de terror





Achou que nosso especial de terror acabou? Desta vez, o jornalista George Pedrosa e o cinéfilo Eduardo Silva, fãs do gênero, listam quais foram as histórias que mais marcaram suas lembranças. Assuste-se.



Filmes

Monstros (1932) - Tod Browning

"Quero que façam algo mais apavorante do que Frankstein". Essa teria sido a frase dita por Irving Thalberg, executivo do estúdio MGM, ao exigir um novo filme que superasse Frankstein (1931), grande sucesso de terror da concorrente Universal. Ficou nas mãos do diretor de Drácula (1931), Tod Browning, a tarefa de criar Monstros, vendido, mais tarde, como " a mais assustadora história de terror sobre anormais e indesejáveis". 

Em um "circo de horrores", o anão Hans (Harry Earles) ganha uma fortuna e  é seduzido pela sinuosa figura da trapezista Cleópatra (Olga Baclanova). Ela o separa da noiva, mantém um caso com Hércules, o homem-músculo, e destrata os demais artistas. Porém, quando o véu da ilusão vem abaixo e tudo é descoberto, uma vingança sedenta se arma envolta daqueles que são verdadeiramente monstruosos. 

Em meio a irmãs siamesas, anões e pessoas com deformidades, Browning constroi uma visão sensível da realidade do circo e mostra que os piores monstros se escondem sob a máscara da "normalidade", como Cleópatra e o amante Hércules. Um dos aspectos que mais chocaram no filme foi o fato de o diretor, antigo artista mambembe, contratar atrações circenses de verdade para atuar, o que incomodou o estúdio e o público. Os resultados finais não foram os esperados. A película atraiu uma enxurrada de críticas e polêmicas, sofrendo várias modificações para poder ser exibida.

O Exorcista (1973) - William Friedkin

Em Georgetown, Washington, a atriz de cinema Chris MacNeilvai (Ellen Burstyn) se desespera ao ver que a filha Regan (Linda Blair), de 12 anos, está agindo de maneira horripilante. Ao se convencer de que se trata de uma possessão demoníaca, Chris recorre aos padres Lankester Merrin (Max von Sydow) e Damien Karras (Jason Miller) na tentativa de salvar a vida da filha.

O enredo é de autoria de William Peter Blatty, roteirista até então de comédias. Ele escreveu o livro O Exorcista baseado em um caso de possessão documentado em 1949. Com um grande orçamento e uma tecnologia de ponta, o filme se tornou um sucesso imediato. Foi o único do gênero de terror a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme. Também foi um dos últimos sucessos de Friedkin na direção.

Zé do Caixão (1963 a 2008) - José Mojica Marins

O personagem Zé do Caixão, criado e interpretado por José Mojica Marins, marcou definitivamente a história do cinema brasileiro. Surgiu pela primeira vez em 1963, no filme À Meia-Noite Levarei Sua Alma, inspirado em um pesadelo de Mojica. 

Em À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1963), Zé do Caixão é um cruel coveiro que estupra a namorada do melhor amigo por sua esposa não conseguir gerar um filho de seu sangue. A moça, então, deseja se suicidar para voltar do mundo dos mortos e arrastar a alma de Zé para o outro lado. 

A saga de Zé do Caixão continua em dois outros filmes. Em Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967), Zé permanece buscando a mulher ideal que irá gerar um filho perfeito. Ele rapta e tortura seis moças, para escolher a mais corajosa. Após matar uma delas que estava grávida, Zé é atormentado por um pesadelo em que é levado para um inferno e reencontra as vítimas. 

Já em A Encarnação do Demônio (2008), Zé reaparece, após ser liberado do cárcere em que estava enclausurado há 30 anos. Ele então retoma sua busca pela mãe de seu futuro filho, perambulando pela cidade São Paulo e deixando atrás de si atos de puro horror.

Livros

A coisa (1986) - Stephen King






No livro, que mais tarde deu origem ao filme It - Uma Obra Prima do Medo (1990), sete crianças da cidade de Derry, no Maine, sobrevivem ao palhaço Pennywise, que se transforma em uma terrível criatura cujo alimento preferido é o medo. Trinta anos depois e já adultos, toda a turma volta à cidade ao descobrir que o monstro também retornou e está assassinando crianças.








Perdidos Street Station (2000) - China Miéville 

Na cidade de New Crobuzon, em que estranhos humanoides convivem com os homens, o cientista Isaac inicia um perigoso trabalho. Para ajudar um Garuda, criatura alada que teve as asas cortadas, Isaac estuda e faz experimentos com diferentes seres voadores. Dentre eles, está uma lagarta que se alimenta apenas de dreamshit, uma droga alucinógena, e que causa esquisitos sonhos eróticos no cientista. À medida que cresce, o ser se transforma em um monstro capaz destruir a alma de todos os habitantes da cidade. A história é um típico exemplo do gênero New Weird, que mistura fantasia, terror e ficção científica. 



Quadrinhos
Black Hole (1995 a 2005) -  Charles Burns

Publicada em 12 volumes entre 1995 e 2005, a HQ narra uma praga que acomete inúmeros adolescentes de Seattle, nos anos 70. O vírus é transmitido por relações sexuais e se manifesta de forma diferenciada em cada caso. Enquanto alguns sofrem apenas manchas na pele, outros se transformam em aberrações, tendo de viverem isolados em acampamentos. Com o hipnotizante traço de Burns, Black Hole já arrebatou diversos prêmios.


O Monstro do Pântano - Alan Moore

O Monstro do Pântano, personagem criado por Len Wein e por Berni Wrightson em 1972, se torna um marco no mundo dos quadrinhos quando ganha novos contornos nas mãos de Alan Moore. Originalmente, após a explosão de seu laboratório, o corpo do cientista Alec Holland é coberto por toxinas e plantas e cai em um pântano, onde sofre terríveis mutações. A partir de então, ele transforma-se em um monstro composto pela matéria orgânica do pântano e busca uma cura para voltar à forma humana. 

Com a chegada de Alan Moore, a história tem uma grande reviravolta. Um dia, é feita uma autópsia no Monstro do Pântano e se descobre o que verdadeiramente aconteceu na explosão do laboratório. Alec Holland havia morrido naquele dia e sua alma tinha sido absorvida pelo pântano. Por isso, a cura não existia, já que nunca o Monstro do Pântano havia sido humano. O Monstro ganha, então, novos poderes, e sua saga passa a ter uma interpretação mais ampla do que a anterior. A obra marcou a história das HQs por trabalhar com o gênero terror e ser escrita para o público adulto.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Nas entranhas do terror

Não adianta negar: seja pelo medo, seja pelo prazer, as histórias macabras exercem um domínio oculto sobre a mente humana. Quando amplificado em livros, filmes, quadrinhos, o terror consegue embutir em seus espectadores/leitores um misto de repulsa e curiosidade, capaz até de marcar permanentemente a memórias.

A cada dia e em cada esquina, é comum ver blockbusters e best-sellers que espirram sangue, violência e dor apenas para seduzir pelo choque. Mas, quando utilizado de forma inteligente, o horror pode ser um portal da alma humana, que transporta para reflexões profundas como a angústia e as demais mazelas da vida em sociedade.

Confira nossa reportagem especial sobre o tema e descubra alguns dos motivos pelos quais essas histórias conseguem prender tanto a atenção.


Algumas obras de Stephen – Parte 1


Da mesma forma que é impossível pensar em vida sem água, é quase infundada a hipótese de pensar em livros de terror sem lembrar-se de Stephen King. Um ícone da literatura do século XX, Stephen se tornou um Best-seller, vendendo mais de 350 milhões de cópias de livros, que unem, em sua maioria, terror e fantasia, ficção-científica. E muitos desses livros inspiraram competentes diretores, que tornaram visuais as tramas, lotando as salas de cinema de todo o mundo.

O primeiro romance, publicado em 1974, foi Carie. Ele conta a história de uma moça bastante pacata e religiosa que, de repente, nota que possui poderes paranormais de telecinese. Como era bastante diferente das adolescentes da sua idade, Carie sofria muito com o bullying. Agora imagine você no lugar dela: todos te detestam, te fazem mal e de repente você percebe que pode mover objetos com o poder da mente. Nesta hora, o Ed diz para mim: “Tamara, por favor, não conta o final do livro”.

Então eu vou contar algumas curiosidades que achei na internet. Primeiro, o livro quase que vai parar em um lixão. Stephen detestou o resultado do seu árduo processo de escrita. Porém, para salvar a pátria, eis que a esposa dele resgata os manuscritos da lixeira e insiste para que King tente publicar. 

E outra: além de adaptações para o cinema e para a televisão, o texto original  foi mote para um musica da Broadway em 1988.

Dois anos após o sucesso do livro, especificamente em 1976, o romance teve adaptação para o cinema, contanto com a atuação do galã do momento, John Travolta, e direção de Brian De Palma.

O filme foi bem bacana num todo. Deu para sentir bem a atmosfera do colégio americano, deu para sentir a pureza da jovem que era extremamente religiosa devido à criação católica fervorosa que sua mãe lhe deu. Mas a atuação de Sissy Spacek não ficou a altura da personagem. Achei até patética a cena que deveria ser a mais impactante.

Então eis que surge um remake. Carie, a estranha, dirigido por Kimberly Peirce (a mesma de Meninos não choram), vai estrear, ao que tudo indica, em março de 2013, tendo como protagonista Chloe Morez. 

A jovem atriz que já tem experiência em filmes de terror, uma vez que protagonizou Deixe-me Entrar, uma versão americana (e ruim) da produção sueca Låt den rätte komma in (Deixa Ela Entrar). Espero que ela se saia bem e que não decepcione.

O cinema como um acréscimo à literatura


Jack Nicholson no papel de Torrance
Outro livro maravilhoso que se tornou um dos filmes mais marcantes da minha vida foi O iluminado. Três anos após a publicação impressa, Stanley Kubrick usou todo o seu brilhantismo como diretor para dar vida ao mais angustiante e bem feito filme de terror dos anos 80. 

Sem deixar tudo bem claro ao espectador, jogando com as hipóteses que surgiam ao longo da trama, Stanley apenas fez uma adaptação que apesar de não ser fiel ao texto original, conquistou um público imenso, sendo considerado o segundo melhor longa de sua carreira, e agradou o próprio Stephen King.

A história se passa em um hotel, o qual no inverno não recebe nenhum hóspede. É nesse momento que Jack Torrance é convidado para, juntamente com sua mulher e filho, tomar conta do espaço. Daí em diante, uma série de psicoses que não deixam certo se os caseiros do local estão ficando loucos ou se o local é amaldiçoado.

Jack Nicholson fez uma brilhante atuação e, até hoje, seu sorriso me causa certo desconforto. A iluminação e a fotografia mantém o espectador preso junto com aquela família, sem saber como fugir daquele ambiente que aparentemente é tranquilo, porém nos afoga num mar de desespero.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

No cinema com o Horror – Volume I

Pode até não ser algo natural da nossa Terra da Luz, mas é incontestável que, no mês de outubro, paira no ar uma estranha névoa de Halloween. Acreditando ou não no sobrenatural, somos constantemente assombrados pelo calendário, que insiste em nos apontar a data final. No dia 31, quer seja no imaginário, quer seja na vida real, as bruxas estarão soltas a nos perseguir.

Para "comemorar" essa aura macabra de outubro, preparamos algumas dicas de filmes sobre um dos temas que mais desperta a curiosidade e o interesse do ser humano: o horror. Mas que tal deixarmos de lado as mutilações à la Jogos Mortais e conhecermos um lado mais psicológico do terror? Abaixo, um dos primeiros exemplares de filmes que arrepiam a espinha até hoje, sem fazer uso exagerado da violência. Aproveite.

Psicose - 1960

Obra prima do diretor Alfred Hitchcock. Expoente máximo do gênero suspense/terror. E ainda: um dos filmes mais icônicos do cinema. Prepare-se, esses são alguns dos comentários mais modestos que ouvirá a respeito do aclamado Psicose. Sem qualquer contra-argumento, realmente é um grande clássico, com toda sua perenidade e subversão. Mas, à margem de qualquer aura de endeusamento, uma coisa é certa: a cada minuto que passa desde a abertura, é possível sentir dentro de si uma bolha de agonia crescente, que explode em puro medo quando a célebre cena do chuveiro surge na tela.

À primeira vista, Psicose pode até desestimular parte dos espectadores que o veem com os olhos da contemporaneidade. Afinal, é uma película em p&b que foge do modelo dos filmões atuais, em que as cores púrpuras, a ação frenética e os sustos programados são pré-requisitos dominantes. Indo na direção contrária dessa pasteurização, Psicose é uma excruciante surpresa para os amantes do gênero. Mesmo passados 52 anos, não há como não se assustar com a desventura de Marion no emblemático motel de Norman Bates.

Na tela

O diretor Alfred Hicthcock, "Mestre do Terror"
Já de início, é prenunciado um clima impregnado de crime e temor. Um dia, a secretária Marion Crane (Janet Leigh) aproveita o fim de semana já próximo e rouba 40 mil dólares da imobiliária onde trabalha para financiar seu casamento. Durante a fuga, decide descansar na pousada de Norman Bates (Anthony Perkins), homem que vive no lugar apenas na companhia materna. Sentindo-se protegida, Marion nem desconfia que a morte ainda lhe visitará  no banho daquela noite. A partir daí, desenrola-se um mistério do tipo whodunit (“quem matou?”), caminhando para um final inimaginável. 

Deixando para trás o lado tiete, o longa é uma deliciosa experiência cinematográfica, repleto de ousadias. Se o público é previamente acostumado a acompanhar a saga da mocinha e torcer pela sua felicidade, fica embasbacado 
aos 40 minutos com sua brutal morte por uma faca ensandecida. Além disso, é obrigado a embarcar na completa transformação de foco da história, quando a dupla formada pelos Bates ganha papel central. Aos poucos, o espectador mergulha na conflituosa relação familiar de Norman com sua controladora mãe, enquanto a tensão no ar se solidifica cada vez mais

Anthony Perkins no papel de Norman Bates
Para além da magistral direção de Hitchcock, as atuações são um dos fortes que sustentam a grandiosidade do filme. Janet Leigh dá uma incrível vulnerabilidade e ingenuidade a uma secretária de caráter duvidoso. Na morte, atinge o ápice da emoção, transfigurando seu rosto molhado em uma carranca de fatal horror. 

A cargo de Perkins fica a missão de dar vida ao complexo personagem de Norman. Ao mesmo tempo em que transparece o ser frágil dominado pela parte materna, o ator incute no personagem algo de terrivelmente misterioso que instiga a plateia até o fim. 

Mas, inegavelmente, um dos maiores trunfos do sucesso horripilante da obra está na música do compositor Bernard Herrmann. Só com Hitchcock, o americano trabalhou em nove filmes, incluindo Um corpo que cai (1958) e Os pássaros (1963). Cidadão Kane (1941) e Taxi Driver (1976) foram algumas das outras obras para as quais compôs. Mesmo assim, foi com a trilha sonora de Psciose que conseguiu marcar à ferro incandescente o imaginário popular. Com violinos rasgantes, cruéis e agonizantes, Herrmann traduziu o desespero da morte e se fez inesquecível na mente daqueles que nem mesmo ouviram falar de seu trabalho. Confira no trailer abaixo:




Nos bastidores
Hicthcock e Perkins nos sets de gravação
Quem vê Psicose nos tempos de hoje mal sabe que se deriva de um romance de Robert Bloch, engrandecido pela adaptação do roteirista Josef Stefano. Conta-se que na época Hitchcock ficou fascinado pelo enredo. Assim que comprou a obra pela bagatela de 9.000 dólares, retirou de circulação todos os exemplares do livro, a fim de manter o segredo sobre o desfecho da história. 

Com um orçamento baixíssimo de 800.000 dólares e usando o elenco do programa que o diretor mantinha na TV, o filme arrecadou 40 milhões de dólares nas bilheterias. Mais econômico ainda, foi gravado em preto e branco em uma época em que o cinema colorido já existia há décadas. O motivo? Porque o Hitchcock achou que a película poderia ficar muito sangrenta se rodada a cores. 


No chuveiro 

Porém, se, por um lado, Hitch fugiu do choque pela violência, por outro, ele não economizou na ousadia em diversos cenas, principalmente na tomada do chuveiro. Pela primeira vez, foi exibido nas telonas um vaso sanitário, algo impensável em tempos passados de rígidos códigos morais. Além disso, se já no cartaz e ao longo do filme Janet Leigh aparecia apenas de roupas íntimas, na morte de Marion foi usada uma dublê nua para dar maior realismo ao fato. Realismo que Hitchcock conseguiu construir em apenas 30 segundos. 

Bastaram 36 tomadas alternadas freneticamente para dar a impressão de que se desenrolava aos nossos olhos um verdadeiro banho em sangue, sem que em nenhum momento fosse necessário a lâmina tocar de fato a pele da atriz. Sangue este que não passava de calda de chocolate, enquanto que o som das “facadas” se originava de punhaladas desferidas em melões. Tudo aparentemente verossímil,  graças ao incrível poder ilusório das mãos do Mestre do Terror.

Nas sequências


Como todo sucesso, Psicose foi explorado repetidamente em outras franquias: Psicose 2 (1983), Psicose 3 (1986) e Psicose 4 - A Revelação (1990), nenhum ao comando de Alfred Hitchcock (e sem o mesmo sucesso). Além disso, um polêmico remake foi feito em 1998 por Gus Van Sant, sem obter a força do primeiro.



Para novembro deste ano, está previsto a estreia de Hitchcock,filme baseado no livro Alfred Hitchcock and the Making of Psycho, de Stephen Rebello, em que é mostrado os bastidores da gravação de Psicose. Só pelo trailer, qualquer um já se apaixona pela atuação de Scarlett Johansson e Anthony Hopkins como Janet Leigh e Alfred Hitchcock. Caia também de amores assistindo ao trailer abaixo:




domingo, 21 de outubro de 2012

Jonh Carpenter: um dos mestres do horror



Eu sou fã de filmes de terror desde a minha adolescência. Num primeiro momento, esse estilo me atraiu pela morbidez e pelo momento gótico que vivia. Depois, com as películas mais psicológicas, eu passei a gostar das epifanias criadas pelos autores, nas quais o “mocinho” era o próprio vilão da trama.

Foram inúmeras as fases e os estilos de terror que me apeteciam, que vão desde o susto barato, passando pelos grotesco, o trash, o vampirismo e muitos outros estilos. E em uma delas esteve presente o diretor John Carpenter.

John é um estadunidense que se formou em Cinema na Universidade de Western Kentucky e depois na Escola de Cinema USC, ambas em Los Angeles. A primeira premiação surgiu em 1970 com um curta chamado The Resurrection of Broncho Billy, o qual não possuía a temática fúnebre.

Depois disso, Carpenter conseguiu se consagrar com vários filmes do gênero terror, tendo como marco o longa Halloween – A Noite do Terror (Halloween) de 1978. Nesse thriller, um psicopata que foge da prisão e na noite do dia das bruxas, persegue e mata as pessoas que residiam nas proximidades da antiga casa dele.

Outro filme bastante interessante desse diretor é O Enigma do Outro Mundo (The Thing) de 1982. Quem gosta bastante dessa trama é George Pedrosa, nosso colega do Curso de Comunicação. Fomos até a Gibiteca da Biblioteca Pública Dolor Barreira para um bate papo, no qual ele apontou este como um dos seus filmes favoritos.



Além do  Kurt Russell ser “o cara” no longa, o filme é bom porque o vilão é um alienígena que possui o poder da metamorfose, se transformando em pessoas e confundindo as mentes das personagens. Assim, além da ficção científica, há um psicologismo pungente na obra, tornando-se uma paranoia. Na época que foi lançando, foi considerado um fracasso por não ter alcançado a bilheteria de Halloween, porém atualmente é considerado Cult e muito bem quisto. 


A década de 1980

Em 1981, Carpenter lançou um dos melhores longas de sua carreira. A Bruma Assassina (The Fog) é um filme bastante culto que possui trilha sonora criada pelo próprio diretor. Um navio afunda durante um forte nevoeiro e, cem anos depois, os espíritos dos tripulantes voltam para se vingar das pessoas que residiam nas proximidades da cidade. Eu tenho verdadeiro fascínio por terror com fantasmas/espíritos, já que dificilmente há como escapar deles.


John Carpenter parece que também gosta desse tipo de vilão, não é a toa que resolveu dar vida a Christine - O Carro Assassino (Christine) do escritor Stephen King. Em 1983 o cineasta lançou o longa que contava a de um carro possuído por uma alma feminina a qual mantinha seus donos aprisionados e capazes de cometer loucuras por ela.






Outras produções

E se você pensa que Carpenter se isentaria de fazer um filme com vampiros, você pode ter certeza do equívoco. Em 1998, eis que surge Vampiros de John Carpenter (Vampires), um western-terror que se passa no México. Um caça vampiro está na cola de um grande “chupador de sangue”, o qual resistiu às intempéries desde o século XIV.

O mais recente filme foi Aterrorizada (The Ward) de 2011. Um filme chocante, com muitos Zombies e fantasmas, os quais os espectadores não sabem se são reais ou não. Ou seja, os anos passam, mas Carpenter não perde sua marca: um misto de fantasia e terror psicológico.